A árdua saga feminina

A árdua saga feminina

Um dia perguntaram a São Tomás de Aquino por que escravos alforriados podiam se tornar sacerdotes e mulheres não. Ele respondeu que escravos eram apenas socialmente inferiores, ao passo que mulheres eram naturalmente inferiores. Incompatíveis, portanto, com qualquer função de poder.    

Com advento do cristianismo na Europa, deu-se início a uma espécie de marginalização feminina. A deusa da antiga religião deu lugar a um Deus masculino; as sacerdotisas, aos padres; e as matriarcas, ao patriarcado machista que agora dominava o continente na força da espada. 

Diante de tanto preconceito histórico, cabe a pergunta: de onde vem tanta hostilidade às mulheres? Seria a nossa formação religiosa, a responsável por este sentimento antifeminista? A resposta é sim e não. A estrutura psicológica do machismo é tão antiga que antecede até mesmo as religiões. Todas, porém, amplificaram exponencialmente este preconceito contra as mulheres ao longo dos últimos milênios.  

Foram os protestantes americanos os primeiros religiosos a questionar este posicionamento. Com o pretexto de ler a bíblia, passaram a pregar o direito de a mulher ser alfabetizada. Em 1717, na Prússia, a educação para ambos os sexos se tornou obrigatória; e embora a revolução francesa seja considerada o berço do feminismo moderno, foi a Nova Zelândia, em 1893, o primeiro país do mundo a permitir o voto feminino.  

No Brasil, a moda só pegou em 1932. Mesmo assim, para mulheres casadas que possuíssem autorização do marido. As leis portuguesas – durante o período colonial – chegavam a classificar as mulheres como Imbecilitus Sexus, uma categoria jurisdicional equivalente a de crianças e doentes mentais.   

No século 18, as mulheres conquistaram o direito ao trabalho remunerado, um verdadeiro presente de grego. Pois, além de ganhar menos pela mesma jornada, ainda tinham que fazer o trabalho doméstico quando chegavam em casa. Era o início de uma jornada dupla que se perpetua até os dias atuais. 

No século 19, até Charles Darwin, um dos mais proeminentes cientistas de todos os tempos, acreditava que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens, mostrando que o machismo institucionalizado não é exclusividade do universo religioso e político.

Em 1979, a ONU promulgou a Carta Internacional dos Direitos da Mulher, tornando nula toda e qualquer forma de discriminação contra o sexo feminino. Hoje, além de se destacarem nas artes, nas ciências e nos esportes, as mulheres já ocupam importantes cargos empresariais e políticos.

Apesar de todos os avanços, no Brasil, em média, as mulheres ainda ganham 20,5% a menos do que os homens; e embora componham a maioria do eleitorado brasileiro (51,7%), ocupam apenas 10% dos cargos políticos. Elas também são quase 67% das vítimas de agressão física no país.  

Diante de tantas barreiras, no dia de hoje, só me resta deixar aqui os meus sinceros parabéns a todas as mulheres.

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